Mulher de luta
Única filha de Cecy, a relações públicas e ex-professora de ensino superior Ana Beatriz Benites Manssour conta que uma das lembranças que tem da época em que a mãe era professora era de alguém que sempre foi muito politizada e que sempre lutou pela melhoria da educação pública.
“Uma coisa que sempre foi muito forte nela, acho que é uma história brasileira, nunca foi valorizada como deveria ser a classe dos professores. Ela lutava muito por isso, eu via ela tirar do bolso dela, juntar coisas em casa para levar para os alunos. Até lanche ela levava para os alunos mais pobres. Eu sei o sacrifício e a dedicação que os professores de vocação, de coração, têm pelos alunos. Ela tinha muito isso, e isso eu reconhecia que havia uma falta de valorização da dedicação”, conta a filha, em entrevista ao Sul21.
Para Ana, Cecy era um exemplo de coragem ao se envolver nas reivindicações do Cpers. “Tinha greve, ela ia atrás. Eu sempre digo que ela não tinha medo de falar as coisas. Tinha muita gente, ainda mais mulher, ainda mais na época dela, que tinha medo de ser mal vista, mal compreendida, mal representada, porque mulher que fica falando e fica brigando, afinal de contas ela foi criada para ser dona de casa e mãe, submissa ao marido e aquelas coisas assim. Ela era uma mulher muito diferente nessa época. Ela realmente dizia o que tinha que dizer. Se tivesse que chegar na porta do governador e falar alguma coisa, ela ia lá e enfiava o dedo no nariz dele”, diz.

Cecy em março de 2020, no início da pandemia | Foto: Arquivo Pessoal
Ela lembra que a mãe contava que, uma vez, estava na greve de 85 e os policiais da tropa de choque da Brigada pressionavam os professores para saírem da frente do Palácio. De repente, percebe que um dos policiais havia sido aluno dela. “Ele olhou para ela, arregalou os olhos, reconheceu a mãe e ela disse assim: ‘Filho, tu não vai fazer isso comigo, tu sabe o nosso trabalho, tu sabe que a gente tem direito de estar aqui’. O cara recuou, deu dois passos para trás e deixou ela ficar ali”, relembra.
Ana conta que a mãe se aposentou no início dos anos 90, mas nunca deixou de ser politizada. Fazia questão de subir a lomba da Rua General Auto, onde morava e onde está localizada a escola Paula Soares, para votar até quase seus últimos anos de vida. Gostava de ter uma vida autônoma até que, em 2019, após ser hospitalizada, a família optou por colocá-la em um residencial geriátrico.
“Em casa, ela não conseguia. Como era muito mandona, as cuidadoras não conseguiam nem dar o remédio na hora, porque ela não deixava. Então, a gente teve que mudar um pouco o esquema. Ela continuou tendo o apartamento dela, para onde ela fugia de vez em quando para fumar, porque ela continuou fumando até o início da pandemia. Ela fugia, passava o dia no apartamento, fumava 10 cigarros, e voltava para o residencial”.
A filha diz acreditar que o que mais fragilizou a mãe foi não poder receber visitas no residencial em razão dos protocolos de contenção da circulação do vírus. “Aí que eu acho que ela ficou mais tristinha. Ficou abatida de ficar trancada. A gente ia visitar, mas não podia chegar perto, ficava a dois metros de distância. Ela foi ficando triste, aí que eu acho que a imunidade caiu mais. Mesmo ela já tendo tomado a segunda dose da vacina, ela acabou pegando [covid-19] e não resistiu”.





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