{"id":67835,"date":"2024-12-20T17:03:38","date_gmt":"2024-12-20T19:03:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/?p=67835"},"modified":"2024-12-20T17:03:38","modified_gmt":"2024-12-20T19:03:38","slug":"historias-que-nao-podem-ser-esquecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/en\/historias-que-nao-podem-ser-esquecidas\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias que n\u00e3o podem ser esquecidas."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Maria Eduarda Souza da Silva Cardomingo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro-reportagem do jornalista Eduardo Reina, intitulado Cativeiro sem fim, \u00e9 uma obra que trata da hist\u00f3ria de beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil. Publicado em 2019 e produzido com t\u00e9cnicas do que \u00e9 chamado, pelo pr\u00f3prio autor, de jornalismo de redescoberta, o livro traz relatos de v\u00edtimas que tentaram ser apagadas da mem\u00f3ria hist\u00f3rica do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ditadura militar brasileira se caracteriza pela quebra dos direitos humanos e por ferir a democracia. Ca\u00e7a a oposi\u00e7\u00e3o, guerrilhas, torturas, mortes, sequestros. A quantidade de horrores desses 20 anos, apesar de ser estudada de tantas formas, continua com muitas lacunas a serem preenchidas. Um assunto de extrema relev\u00e2ncia e que ningu\u00e9m discute, sequestros que muitos brasileiros nunca ouviram falar, essa foi uma das brechas que a obra tentou responder. O livro conta com um incr\u00edvel processo de pesquisa e uma impressionante quantidade de informa\u00e7\u00f5es e fontes. \u00c9 inquestion\u00e1vel a profundidade com que o assunto foi tratado, o comprometimento em saber mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, t\u00e3o importante quanto fazer uma grande pesquisa, \u00e9 saber selecionar o que e como cada detalhe entra na obra, caso contr\u00e1rio a leitura se torna cansativa e dif\u00edcil. O g\u00eanero liter\u00e1rio narrativo se divide em cinco elementos: enredo, personagens, tempo, espa\u00e7o e narrador. O enredo da obra, com uma hist\u00f3ria importante e que merece ser contada, tem um encadeamento de fatos confuso como consequ\u00eancia da maneira como aparecem os outros elementos. Apresenta uma extensa lista de personagens, que t\u00eam a suas hist\u00f3rias entrela\u00e7adas, mas da forma como foi contado torna tudo um emaranhado de pessoas. A passagem do tempo, sempre intercalando entre passado e presente, n\u00e3o tem uma marca\u00e7\u00e3o definida, assim como a mudan\u00e7a entre os espa\u00e7os psicol\u00f3gico e f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo para o \u00faltimo elemento, segundo Andr\u00e9ia Couto (2017), um narrador em primeira pessoa, sendo ele um protagonista ou testemunha, v\u00e1rias vezes se coloca no texto como \u201ceu\u201d. J\u00e1 na narrativa em terceira pessoa, o narrador fica respons\u00e1vel por relatar aquilo que a ele foi contado. Para Couto (2017), narrar em terceira pessoa, em um livro-reportagem com perspectiva hist\u00f3rica, \u00e9 imprescind\u00edvel para a constru\u00e7\u00e3o de um narrador neutro. Mas essa neutralidade n\u00e3o causaria um distanciamento entre o leitor e a hist\u00f3ria? Todo trauma passado pelas crian\u00e7as sequestradas \u00e9 um t\u00f3pico de grande sensibilidade, mas ao contr\u00e1rio do que se \u00e9 esperado, a forma como o narrador relata tudo \u00e9 de certa frieza. A obra oscila entre narra\u00e7\u00f5es em primeira e terceira pessoa, mas nem mesmo essa troca foi capaz de causar sensa\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o com as hist\u00f3rias. A falta de um relato mais emocional implica na falta de envolvimento de quem l\u00ea, na dificuldade da constru\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o leitor e acontecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo dessas observa\u00e7\u00f5es pode ser visto no s\u00e9timo cap\u00edtulo do livro de Reina (2019) \u201c Lia Cec\u00edlia\u201d, onde a hist\u00f3ria da personagem s\u00f3 come\u00e7a a ser contada 7 p\u00e1ginas ap\u00f3s o come\u00e7o do cap\u00edtulo e o tempo n\u00e3o \u00e9 passado de maneira linear. Em alguns momentos, l\u00ea-se sobre o passado de Lia e em outros j\u00e1 se est\u00e1 falando do presente, mas essa troca n\u00e3o fica clara. A quantidade de personagens inseridos e a forma como s\u00e3o apresentados \u00e9 confusa, o desencadeamento de todo o enredo \u00e9 nebuloso. Al\u00e9m disso, a narra\u00e7\u00e3o em terceira pessoa traz seu toque de impessoalidade e at\u00e9 mesmo insensibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto importante \u00e9 a falta de desfecho para as personagens e isso se d\u00e1 pelo fato de que, realmente, n\u00e3o acabou. A escolha do t\u00edtulo da obra foi perfeita: o sequestro pode ter acabado, mas o que o acontecimento causou na vida dessas v\u00edtimas \u00e9 permanente. Como o caso de Lia, onde \u00e9 dito que ela se formou em gest\u00e3o de recursos humanos e mora no Rio de Janeiro, mas ainda n\u00e3o descobriu quem \u00e9 sua m\u00e3e biol\u00f3gica (REINA, 2019). Mesmo que essas pessoas tenham seguido com suas vidas e superado muitos desafios, alguns nunca ser\u00e3o resolvidos. O cativeiro de fato nunca ter\u00e1 um fim e, por isso, essas hist\u00f3rias precisam ser contadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo Reina foi sucinto na escolha da pauta para seu livro-reportagem: a curiosidade sobre como e por qual motivo essas coisas aconteceram, a curiosidade sobre quem foi afetado com isso e como essas v\u00edtimas est\u00e3o agora. Estas e muitas outras motiva\u00e7\u00f5es trouxeram \u00e0 tona respostas para lacunas que nem mesmo sab\u00edamos que existiam. E ainda mais importante que as respostas que o livro trouxe, as perguntas que foram deixadas s\u00e3o a garantia de que essas hist\u00f3rias n\u00e3o ser\u00e3o esquecidas. Apesar da narrativa confusa, a leitura cansativa e a frieza do narrador, a obra \u00e9 importante para todos aqueles que querem saber mais sobre os horrores da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><br \/>\nCOUTO, Andr\u00e9ia. O Foco Narrativo. In: COUTO, Andr\u00e9ia. <strong>Livro-reportagem: Guia<\/strong><br \/>\n<strong>pr\u00e1tico para profissionais e estudantes de jornalismo.<\/strong> Campinas: Al\u00ednea, 2017,<br \/>\np. 108- 115.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nREINA, Eduardo. <strong>Cativeiro sem fim: As hist\u00f3rias dos beb\u00eas, crian\u00e7as e<\/strong><br \/>\n<strong>adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Alameda,<br \/>\n2019.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Eduarda Souza da Silva Cardomingo O livro-reportagem do jornalista Eduardo Reina, intitulado Cativeiro sem fim, \u00e9 uma obra que trata da hist\u00f3ria de beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil. 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