{"id":67832,"date":"2024-12-20T16:19:09","date_gmt":"2024-12-20T18:19:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/?p=67832"},"modified":"2024-12-20T16:23:10","modified_gmt":"2024-12-20T18:23:10","slug":"ainda-estamos-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/en\/ainda-estamos-aqui\/","title":{"rendered":"Ainda estamos aqui"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Franchesco de Oliveira Y Castro, estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem nos permite explorar o desconhecido. Por meio dela, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma conex\u00e3o com a realidade e nos aproximar do que ainda n\u00e3o conhecemos. Ela nos comunica com o mundo. Nesse universo visual, o cinema nacional transmite uma mensagem ao p\u00fablico, agindo como uma forma de comunica\u00e7\u00e3o. Agente difusor da imagem e da identidade cultural brasileira, o cinema nacional sempre foi um espelho da alma brasileira, refletindo as diferentes hist\u00f3rias, dores e alegrias de um pa\u00eds heterog\u00eaneo. Atrav\u00e9s de suas produ\u00e7\u00f5es, o cinema brasileiro celebra a diversidade cultural, social e geogr\u00e1fica do Brasil, mostrando a riqueza de um pa\u00eds multifacetado e repleto de singularidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que a identidade cultural \u00e9 como uma pe\u00e7a de cestaria ind\u00edgena, tran\u00e7ada por fibras naturais, cip\u00f3 e bambu. Representam hist\u00f3rias, mem\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es que, juntas, formam a riqueza das v\u00e1rias culturas presentes no pa\u00eds. No Brasil essa cestaria \u00e9 forte e diversificada, refletindo a multiplicidade de vozes e viv\u00eancias que fazem parte do nosso cotidiano. A identidade cultural n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, \u00e9 um processo cont\u00ednuo de constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o, onde o passado encontra o presente e lan\u00e7a sementes para o futuro. Cada produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica contada representa um ato de resist\u00eancia contra o esquecimento, uma reafirma\u00e7\u00e3o de quem somos e de onde viemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o da identidade cultural e da mem\u00f3ria coletiva no Brasil \u00e9 cheia de narrativas que v\u00e3o al\u00e9m dos livros de hist\u00f3rias. Filmes como \u201cCentral do Brasil\u201d, \u201cO Auto da Compadecida\u201d, \u201cCidade de Deus\u201d e \u201cBacurau\u201d revelam diferentes aspectos da cultura brasileira. \u201cCentral do Brasil\u201d mostra a busca por ra\u00edzes e pertencimento, enquanto \u201cO Auto da Compadecida\u201d reflete a resist\u00eancia e criatividade do povo nordestino. \u201cCidade de Deus\u201d reflete sobre a viol\u00eancia e desigualdade das favelas cariocas, destacando a exclus\u00e3o social e a resist\u00eancia dos que sobrevivem. \u201cBacurau\u201d oferece uma vis\u00e3o da resist\u00eancia e identidade comunit\u00e1ria, misturando tradi\u00e7\u00e3o e modernidade. Tais obras cinematogr\u00e1ficas contribuem para a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva, que consiste em ser um conjunto de lembran\u00e7as, experi\u00eancias e conhecimentos que ajudam na constru\u00e7\u00e3o de identidade cultural e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acesso \u00e0 cultura \u00e9 um direito humano universal, de acordo com a Declara\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas elaborada em 1948. O artigo 27 do documento diz que todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso cient\u00edfico e de seus benef\u00edcios. Por\u00e9m, cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o brasileira vive em cidades sem museus, e apenas 57% t\u00eam acesso a salas de cinema em seu munic\u00edpio, segundo o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es e Indicadores Culturais (SIIC) do IBGE. A pesquisa, que subsidia pol\u00edticas p\u00fablicas, foi divulgada em dezembro de 2023 e abrange dados de 2011 a 2022. O estudo analisa a presen\u00e7a de cinemas, museus, teatros e r\u00e1dios locais para medir o dinamismo cultural de diferentes regi\u00f5es, revelando contrastes, especialmente entre o Norte e o Sul do pa\u00eds. Apenas 9% dos munic\u00edpios possuem salas de cinemas, com maior concentra\u00e7\u00e3o no Sudeste, sendo a\u00e7\u00e3o, aventura, com\u00e9dia e suspense os destaques entre os t\u00edtulos mais assistidos. Por\u00e9m, n\u00e3o necessariamente s\u00e3o filmes brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ag\u00eancia Nacional do Cinema (Ancine), vinculada ao Minist\u00e9rio da Cultura (MinC), divulgou dados em novembro sobre a evolu\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do cinema no Brasil. Os n\u00fameros indicam a retomada do aumento de salas de cinema, alcan\u00e7ando o maior patamar da s\u00e9rie hist\u00f3rica e confirmando a trajet\u00f3ria de crescimento e atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos cinemas brasileiros, incluindo melhorias na acessibilidade para pessoas com defici\u00eancia visual e auditiva. Segundo o gr\u00e1fico do Painel de Complexos e Salas de Exibi\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), atualmente h\u00e1 3.481 cinemas em funcionamento em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Esse n\u00famero representa o maior patamar j\u00e1 registrado, superando o recorde anterior de 2019, quando havia 3.478 salas em funcionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ascens\u00e3o poderia ter sido maior, visto que a gest\u00e3o da Cultura do governo Bolsonaro foi marcada por v\u00e1rias medidas controversas, como a extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura (MinC) e o desmonte da Ag\u00eancia Nacional do Cinema (Ancine), decis\u00e3o fortemente criticada e classificada como a pior das \u00faltimas d\u00e9cadas, devido a acusa\u00e7\u00f5es de censura, cita\u00e7\u00f5es nazistas, alus\u00e3o \u00e0 ditadura militar, trocas frequentes de gestores e imposi\u00e7\u00e3o de uma moral religiosa na sele\u00e7\u00e3o de projetos financiados. Em 2 de janeiro de 2019, uma medida provis\u00f3ria extinguiu o MinC, redistribuindo suas compet\u00eancias para outros \u00f3rg\u00e3os e minist\u00e9rios ou at\u00e9 eliminando-as. \u00c9 importante destacar que um pa\u00eds sem incentivo ao acesso \u00e0 cultura resulta em uma sociedade mais desigual, marginalizada e, por consequ\u00eancia, desinformada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, o que se entende por cultura? O conceito de cultura nunca foi un\u00e2nime. Quando algu\u00e9m se refere ao termo cultura, geralmente pensamos no conceito mais erudito, que abrange apenas as artes e manifesta\u00e7\u00f5es culturais de prest\u00edgio, como teatro, cinema, dan\u00e7a etc. Por\u00e9m, pode-se considerar tamb\u00e9m como cultura fatos geogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos relevantes de uma sociedade. A cultura \u00e9 um conceito amplo, que abrange manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, sociais, comportamentais e intelectuais. Ela inclui tudo, desde tradi\u00e7\u00f5es e valores at\u00e9 formas de express\u00e3o art\u00edstica. No caso do cinema, atualmente, as plataformas de streaming tornaram-se cada vez mais acess\u00edveis, permitindo que uma ampla parcela da popula\u00e7\u00e3o tenha acesso a uma diversidade de conte\u00fados culturais. Esse acesso facilitado a filmes, s\u00e9ries e document\u00e1rios por meio das plataformas digitais democratiza, em parte, a cultura, oferecendo oportunidades para que mais pessoas possam consumir e apreciar produ\u00e7\u00f5es culturais de diferentes partes do mundo. Portanto, o uso crescente de plataformas de streaming representa uma forma significativa de acesso a esse tipo de cultura, contribuindo para a forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais informada e culturalmente rica, mas n\u00e3o \u00e9 o bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale ressaltar que pol\u00edticas p\u00fablicas culturais devem ser desenvolvidas, sem uma vis\u00e3o unificada, para promover a diversidade cultural e a inclus\u00e3o social. Desde 2023, com a chegada do governo Lula, foi reativado o Minist\u00e9rio da Cultura, nomeando a cantora baiana Margareth Menezes como ministra. Segundo o relat\u00f3rio de transi\u00e7\u00e3o de governo, o papel que a cultura representar\u00e1 ser\u00e1 indispens\u00e1vel e tem como foco principal sua preserva\u00e7\u00e3o a todos. Como exemplo dessas pol\u00edticas p\u00fablicas, destacam-se as Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, que visam a incentivar a cultura e apoiar o setor cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais destinat\u00e1rios dessas pol\u00edticas, o cinema tem a capacidade de perpetuar mem\u00f3rias. Exemplo disso \u00e9 o filme &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221;, dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, que destaca-se como uma das maiores bilheterias do ano. Desde sua estreia em 7 de novembro, a produ\u00e7\u00e3o atraiu mais de 2,5 milh\u00f5es de espectadores nos cinemas brasileiros. Recentemente, o longa de Salles foi indicado a duas categorias no Globo de Ouro, uma das premia\u00e7\u00f5es mais prestigiadas do audiovisual internacional. Al\u00e9m de tamb\u00e9m estar selecionado para a shortlist do Oscar 2025, que consiste em ser a pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o dos filmes que poder\u00e3o concorrer em diversas categorias na maior premia\u00e7\u00e3o do cinema mundial. Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o filme se passa no Rio de Janeiro nos anos 1970 e narra a trajet\u00f3ria de Eunice Paiva, vivida por Torres, uma dona de casa de uma fam\u00edlia influente que precisa se reinventar ap\u00f3s o desaparecimento de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Na primeira parte do filme, vemos um casal apaixonado e seus cinco filhos vivendo em uma encantadora casa \u00e0 beira-mar no Rio de Janeiro. Na segunda metade, o lar se esvazia com a aus\u00eancia de Rubens. A interpreta\u00e7\u00e3o de Torres ocupa esse espa\u00e7o com a determina\u00e7\u00e3o contida, mas intensa, de uma m\u00e3e que se recusa a chorar diante dos filhos. No final, &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; transmite uma mensagem sincera. O sil\u00eancio que muitas vezes perdura a opress\u00e3o bem como os atos que tenta esconder. Este \u00e9 um filme que n\u00e3o oferece respostas f\u00e1ceis, em vez disso, desafia o p\u00fablico a refletir sobre a responsabilidade de lembrar e de agir. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o importante n\u00e3o apenas para a hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica, mas tamb\u00e9m para a hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a trajet\u00f3ria do cinema nacional se desenha como uma cesta complexa, tecendo fios de identidade, mem\u00f3ria e resist\u00eancia. N\u00e3o se trata apenas de entretenimento, mas de um reflexo das m\u00faltiplas vozes que comp\u00f5em o Brasil. Cada filme \u00e9 um ato de coragem, uma declara\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, uma prova de que, apesar dos desafios, as culturas brasileiras persistem. A identidade cultural \u00e9 fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e da sociedade, pois fornece um sentido de pertencimento e continuidade hist\u00f3rica. Ela conecta as pessoas a suas ra\u00edzes, tradi\u00e7\u00f5es e valores, colaborando na maneira como se veem e interagem com o mundo. A luta por acesso \u00e0 cultura e a valoriza\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es nacionais \u00e9 fundamental para garantir que nossas hist\u00f3rias e mem\u00f3rias continuem sendo contadas. Somente assim poderemos assegurar que as vozes diversas que comp\u00f5em a cultura brasileira sejam ouvidas e celebradas, contribuindo para um futuro mais inclusivo e representativo, entrela\u00e7adas t\u00e3o intimamente quanto as fibras dos cestos ind\u00edgenas.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Franchesco de Oliveira Y Castro, estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen A imagem nos permite explorar o desconhecido. 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