{"id":51390,"date":"2021-12-22T12:23:30","date_gmt":"2021-12-22T14:23:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.comunitaria.com.br\/?p=51390"},"modified":"2021-12-23T13:03:29","modified_gmt":"2021-12-23T15:03:29","slug":"reportagem-do-the-intercept-afirma-que-bispo-de-fw-e-denunciado-por-estupro-de-vulneravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/en\/reportagem-do-the-intercept-afirma-que-bispo-de-fw-e-denunciado-por-estupro-de-vulneravel\/","title":{"rendered":"Reportagem do The Intercept afirma que Bispo de FW \u00e9 denunciado por estupro de vulner\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<div class=\"PostContent\" data-reactid=\"180\">\n<div data-reactid=\"181\">\n<p>O portal The Intercept Brasil publica nesta segunda-feira, 20, uma reportagem especial denominada&nbsp; &#8220;SIL\u00caNCIO NA IGREJA&#8221;, que&nbsp; traz den\u00fancias contra o Bispo da cidade, Dom Antonio Carlos Rossi Keller. Entre as den\u00fancias est\u00e1 a de estupro de vulner\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>CONFIRA NA INTEGRA A REPORTAGEM<\/strong><\/h3>\n<p>Frederico Westphalen \u00e9 uma cidade de 31 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul, a mais de 420 km de Porto Alegre. Apesar do nome germ\u00e2nico, ali predominam os descendentes de italianos. Uma popula\u00e7\u00e3o tranquila e ordeira, que se orgulha de ir \u00e0 missa aos domingos.<\/p>\n<p>Assim como em boa parte das col\u00f4nias italianas do interior ga\u00facho, a Igreja Cat\u00f3lica exerce grande influ\u00eancia sobre a comunidade local. No caso de Frederico, como a cidade \u00e9 carinhosamente chamada pelos moradores, a igreja ainda controla o principal grupo de comunica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, o Luz e Alegria, dono da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.luzealegria.com.br\/institucional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">r\u00e1dio mais popular da cidade<\/a>, de um jornal impresso e de um site. O Conselho da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Miss\u00f5es, a URI, tamb\u00e9m conta com a participa\u00e7\u00e3o de autoridades cat\u00f3licas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos,&nbsp; a aparente tranquilidade das cal\u00e7adas frederiquenses foi abalada por uma den\u00fancia de pedofilia contra o bispo da cidade, Dom Antonio Carlos Rossi Keller, assinada por membros da pr\u00f3pria igreja. Acima dos padres na hierarquia da igreja, o bispo \u00e9 o l\u00edder regional dos cat\u00f3licos, chefe da diocese de Frederico Westphalen, que compreende 39 par\u00f3quias em 56 munic\u00edpios.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"third-party--article-mid\" class=\"NewsletterEmbed-container\" data-reactid=\"182\">\n<div class=\"tp-container-inner loaded\">A acusa\u00e7\u00e3o veio em forma de uma carta redigida por sete padres e cinco fi\u00e9is, na qual acusavam o bispo Keller de abusar de meninos menores de idade ligados \u00e0 igreja. \u201cPedofilia no interior do clero e do clero com seminaristas\u201d, diz o texto. Sem poder recorrer ao bispo, enviaram a carta, ainda em 2017, ao arcebispo da cidade de Passo Fundo, ao N\u00fancio Apost\u00f3lico (representante diplom\u00e1tico da Santa S\u00e9 em pa\u00edses de grande popula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica) e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio Grande do Sul.<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"192\">\n<p>No texto, eles tamb\u00e9m reclamavam do esvaziamento das missas, abuso de poder do bispo com outros sacerdotes, falta de transpar\u00eancia no uso do dinheiro recolhido pela congrega\u00e7\u00e3o e \u201caproxima\u00e7\u00e3o intensa com o seguimento radical da Opus Dei\u201d, denomina\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/historia\/opus-dei-o-exercito-do-papa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ultraconservadora<\/a>&nbsp;da igreja que prega, por exemplo, castigos f\u00edsicos como forma de autopuni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"193\">\n<div data-reactid=\"194\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381229\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/DENUNCIA-MP-23.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"\"><\/p>\n<p class=\"caption\">Trecho da carta enviada ao arcebispo da cidade de Passo Fundo, ao N\u00fancio Apost\u00f3lico e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"195\">\n<p>Ao menos dois padres que assinaram o documento acabaram afastados da igreja, impedidos de rezar missas e sem os benef\u00edcios fornecidos pela institui\u00e7\u00e3o, como a contribui\u00e7\u00e3o para a Previd\u00eancia Social, plano de sa\u00fade e a c\u00f4ngrua, como \u00e9 conhecido o \u201csal\u00e1rio\u201d recebido pelos sacerdotes. Um deles enfrenta ainda um processo de expuls\u00e3o da igreja.<\/p>\n<p>Quatro anos ap\u00f3s a den\u00fancia, os signat\u00e1rios n\u00e3o tiveram qualquer resposta por parte do N\u00fancio. Enquanto a igreja preferiu dar pouca aten\u00e7\u00e3o ao caso, o Minist\u00e9rio P\u00fablico&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.documentcloud.org\/documents\/21164046-inquerito-mp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">abriu um inqu\u00e9rito<\/a>&nbsp;e, em agosto de 2020, denunciou o bispo Keller por estupro de vulner\u00e1vel contra o ex-coroinha Lucas Faligurski. Tive acesso com exclusividade \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e ao processo, que corre em sigilo.<\/p>\n<p>Para o promotor Gerson Luis Kirsch Daiello Moreira, o bispo se aproveitou de sua \u201cautoridade como bispo\u201d e da \u201cfragilidade afetivo-psicol\u00f3gica da v\u00edtima\u201d para cometer os abusos. Os crimes, segundo o MP, ocorreram entre agosto de 2008 e fevereiro de 2010, quando o ex-coroinha tinha 13 e 15 anos.<\/p>\n<p>A den\u00fancia aponta ainda os crimes de les\u00e3o \u00e0 sa\u00fade e coa\u00e7\u00e3o no curso do processo em fun\u00e7\u00e3o das puni\u00e7\u00f5es aplicadas a Claudir Miguel Zucchi, um dos padres que assina a carta. Para o MP, as penalidades impostas a Zucchi, que pode ser expulso da igreja, serviram para desencorajar outros poss\u00edveis denunciantes.<\/p>\n<p>O juiz da comarca local, por\u00e9m, rejeitou a den\u00fancia, alegando que parte das condutas imputadas ao bispo n\u00e3o caracterizavam crime e que as demais condutas n\u00e3o teriam sido descritas de forma satisfat\u00f3ria pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, o que representaria \u201cviola\u00e7\u00e3o do contradit\u00f3rio, da ampla defesa e da necessidade de uma acusa\u00e7\u00e3o certa\u201d. O MP recorreu. Em junho deste ano, o caso foi encaminhado ao Tribunal de Justi\u00e7a do Rio Grande do Sul, onde aguarda julgamento.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"196\">\n<div data-reactid=\"197\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381272\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/Dom-Antonio-Carlos-Rossi-Keller-5.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Dom Antonio Carlos Rossi Keller\"><\/p>\n<p class=\"caption\">Para o MP,&nbsp;o bispo Keller se aproveitou de sua \u201cautoridade como bispo\u201d e da \u201cfragilidade afetivo-psicol\u00f3gica da v\u00edtima\u201d para cometer os abusos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"198\">\n<h3>\u2018Paz e harmonia\u2019<\/h3>\n<p><span class=\"dropcap\" data-shortcode-type=\"dropcap\">M<\/span>eses depois da carta que deu in\u00edcio \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do MP, ainda em 2017, circulou pela cidade&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.documentcloud.org\/documents\/21164045-carta-dos-empresarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">outro texto<\/a>. Dessa vez, em defesa do religioso. Era assinado por cerca de 20 pessoas, entre empres\u00e1rios, presidentes de associa\u00e7\u00f5es, funcion\u00e1rios da r\u00e1dio comandada pela igreja e at\u00e9 mesmo pelo prefeito Jos\u00e9 Alberto Panosso, do MDB, reeleito em 2020.<\/p>\n<p>A segunda carta n\u00e3o faz qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0s suspeitas de pedofilia, apenas afirma que a diocese est\u00e1 \u201cem paz e harmonia\u201d e defende o trabalho do bispo \u201cde alma pura, cora\u00e7\u00e3o bondoso e a\u00e7\u00f5es predominantemente evangelizadoras\u201d. Ainda afirmava que as missas tinham bom p\u00fablico.<\/p>\n<p>Conversei com dois dos signat\u00e1rios, que disseram n\u00e3o saber a finalidade do documento. Sobre a den\u00fancia em si, n\u00e3o quiseram comentar. Falar da igreja parece ser algo bastante delicado para os cat\u00f3licos e n\u00e3o cat\u00f3licos da cidade. \u00c9 o tipo de assunto que se comenta em voz baixa, quase em tom confessional.<\/p>\n<p>Keller chegou \u00e0 cidade em 2008, vindo do estado de S\u00e3o Paulo. O bispo forasteiro logo chamou aten\u00e7\u00e3o por manter h\u00e1bitos diferentes de seus antecessores. Trazia a tiracolo um rapaz de 18 anos que morava com ele e o ajudava nas tarefas da igreja. Keller tamb\u00e9m tinha como costume levar adolescentes ligados \u00e0 igreja para viver com ele, o que tamb\u00e9m n\u00e3o ocorria antes.<\/p>\n<p>Entre os meninos do semin\u00e1rio, que estudam para se tornarem padres, morar com o bispo era sinal de prest\u00edgio e tamb\u00e9m de conforto: na lista dos agrados do religioso aos jovens estavam viagens, geladeira farta e presentes, que chegavam a celular, notebook e at\u00e9 um cheque em branco \u2013 coisas que as fam\u00edlias dos seminaristas, no geral formadas por gente simples do interior, n\u00e3o poderiam lhes oferecer.<\/p>\n<p>O bispo, relataram moradores e religiosos com quem conversei, era muito pr\u00f3ximo e carinhoso com os jovens. Na cabe\u00e7a de adolescentes interioranos criados dentro da igreja, era uma rela\u00e7\u00e3o quase de pai e filho. Entre os adultos, despertava suspeitas.<\/p>\n<p>Lucas Faligurski, figura central na den\u00fancia do MP, foi o primeiro menino local que morou com o bispo, na resid\u00eancia episcopal. Era provavelmente o mais vulner\u00e1vel dos coroinhas e cerimoni\u00e1rios, adolescentes que auxiliam os padres e o bispo nas tarefas religiosas. O sonho da m\u00e3e era que ele e o irm\u00e3o se tornassem padres, mas ela morreu quando ele tinha cinco anos. O pai era distante e trabalhava viajando. O jovem acabou sendo criado por um casal de tios beatos da igreja. Na \u00fanica vez em que inocentemente atribuiu \u00e0 tia a rela\u00e7\u00e3o de maternidade, um tapa bem dado no p\u00e9 do ouvido lhe ensinou que m\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"199\">\n<div data-reactid=\"200\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381240\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/caso-rossi-keller-1.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Dom Antonio Carlos Rossi Keller,\"><\/p>\n<p class=\"caption\">O ex-coroinha Lucas Faligurski e o bispo Keller.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"201\">\n<p>Passados mais de dez anos, o nome Lucas ficou s\u00f3 no documento. Ap\u00f3s um processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, hoje se reconhece como mulher e atende pelo nome de Tain\u00e1 D\u2019Oy\u00e1. \u00c9 m\u00e3e de santo de batuque, vertente ga\u00facha da religiosidade de matriz africana.<\/p>\n<p>Tain\u00e1 me recebeu na sala de sua casa, em Frederico, que funciona tamb\u00e9m como centro religioso, onde presta atendimento espiritual. Ela me contou que, logo ao chegar \u00e0 cidade, o bispo teve a ideia de criar um grande grupo de meninos para serem seus ajudantes.<\/p>\n<p>\u201cAceitei participar. No outro dia, teve missa de manh\u00e3, e o bispo j\u00e1 demonstrou muito interesse, come\u00e7ou a me ensinar a mexer no missal, antes mesmo de formar o grupo. Nisso, j\u00e1 come\u00e7ou a me levar para tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 na casa dele\u201d, narrou.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, tinha 13 anos. O bispo Keller, 55. O menino virou mestre de cerim\u00f4nias e passou a acompanhar as viagens do religioso pelas par\u00f3quias da diocese. O bispo, conta, lhe dava presentes. Ganhou roupas, dinheiro e at\u00e9 um notebook e um celular. Para o MP, os presentes serviam para \u201ccativar e premiar o sil\u00eancio \u00e0s investidas libidinosas do denunciado\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s algum tempo, relembra, as car\u00edcias, aparentemente inocentes, foram se tornando mais frequentes. Carinhos na m\u00e3o, na perna, abra\u00e7os com a cabe\u00e7a do jovem encostando no peito do bispo. Em 2008, dois meses depois de ter completado 14 anos, teria ocorrido a primeira investida sexual do religioso.<\/p>\n<p>\u201cA m\u00e3e dele tinha vindo para a cidade, e ele a levou para conhecer o monumento do Mart\u00edrio dos Beatos. Na volta, ele me agarrou pela primeira vez. Eu nem tinha minha sexualidade resolvida ainda. Ele disse que queria me mostrar uma coisa no computador, fechou a cortina, trancou a porta e, quando eu sentei na cadeira, ele me levantou e come\u00e7ou a me beijar. Ele falou \u2018eu fa\u00e7o isso porque eu te amo\u2019. Eu fiquei&nbsp;<a data-tooltip=\"Ao falar dos fatos denunciados pelo MP, Tain\u00e1, que na \u00e9poca se reconhecia como um menino, utiliza palavras no g\u00eanero masculino.\">assustado<\/a>\u201d, contou.<\/p>\n<p>Foi o primeiro beijo da sua vida. As investidas prosseguiram. \u201cNo escrit\u00f3rio dele, depois que a empregada ia embora, ou no carro, me levava para passear e parava em algum lugar. O m\u00e1ximo que rolou foi sexo oral\u201d, recordou.<\/p>\n<p>O menino chegou a morar com o bispo por cerca de um m\u00eas, quando deixou a casa da tia ap\u00f3s uma briga, aos 14 anos, e procurou o Conselho Tutelar. Logo circularam suspeitas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os dois, e o adolescente se mudou para a casa de uma fam\u00edlia da regi\u00e3o, tamb\u00e9m ligada \u00e0 igreja. No novo lar e na escola, foi perguntado sobre o bispo pelo casal que o acolheu, mas negou os abusos.<\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o de morar com o bispo foi do pr\u00f3prio conselho, segundo Tain\u00e1. Em depoimento ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, a conselheira tutelar da \u00e9poca, que participa ativamente da igreja, faz elogios ao religioso e diz que n\u00e3o se lembra se Lucas chegou a morar com ele. Sobre o menino, diz recordar apenas de dois atendimentos, sem muitos detalhes. Quando o promotor insiste um pouco mais, ela diz que caiu \u201cdo c\u00e9u\u201d neste caso, \u201cde paraquedas\u201d.<\/p>\n<p>Ela confirma que ouviu boatos de que representantes da Santa S\u00e9 estiveram na cidade investigando alguma coisa, mas que ela n\u00e3o sabia o que era e n\u00e3o teve curiosidade em saber.<\/p>\n<p>Hoje, Tain\u00e1 reconhece que sofreu abuso pelo bispo e acredita que, na \u00e9poca, tenha se apaixonado pelo religioso. \u201cNunca na vida ningu\u00e9m tinha dito que me amava\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>As investidas teriam ocorrido por cerca de um ano, at\u00e9 que a v\u00edtima decidiu dar um basta na hist\u00f3ria e passou a se afastar do bispo. Tain\u00e1 contou que, nesse per\u00edodo, membros da igreja, com apoio de seu pai, tentaram lhe internar \u00e0 for\u00e7a em uma cl\u00ednica psiqui\u00e1trica em Porto Alegre, por meio de um processo judicial.<\/p>\n<p>Sem saber, o adolescente foi levado a uma consulta psiqui\u00e1trica, que resultou em um laudo recomendando a interna\u00e7\u00e3o. No curso do processo, o juiz pediu nova avalia\u00e7\u00e3o, por um psiquiatra do munic\u00edpio. O segundo exame descartou a necessidade de interna\u00e7\u00e3o e recomendou tratamento no Centro de Apoio Psicossocial da cidade.<\/p>\n<p>Tain\u00e1 acredita que o objetivo da interdi\u00e7\u00e3o era evitar que o caso ganhasse repercuss\u00e3o. \u201cEles queriam me internar como louco. Queriam se livrar de mim, me tirar do conv\u00edvio da igreja\u201d.<\/p>\n<p>Ela afirma que nunca tomou a iniciativa de denunciar o bispo, em fun\u00e7\u00e3o do poder da igreja. \u201cHoje, eu sei que ele usou da minha fraqueza, da minha fragilidade emocional para se aproveitar de mim. Acredito que uma crian\u00e7a jamais se apaixonaria por uma pessoa da idade dele. A gente v\u00ea, em casos de pedofilia e estupro, que muitas vezes o agressor se aproxima da v\u00edtima, faz carinhos, se faz de amigo\u2026 E foi isso que ele fez\u201d.<\/p>\n<p>Tentei conversar com o bispo denunciado, mas ele n\u00e3o quis falar. No depoimento ao MP, acompanhado por um advogado, ele tamb\u00e9m lan\u00e7ou m\u00e3o do direito de ficar calado. Keller permanece no exerc\u00edcio de suas atividades na igreja, como bispo regional.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\" data-reactid=\"202\">\n<div data-reactid=\"203\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381373\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/silencio-na-igreja-2.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Bispo cat\u00f3lico \u00e9 denunciado por estupro de vulner\u00e1vel depois de morar com adolescentes no RS\"><\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Amanda Miranda para o Intercept Brasil<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"204\">\n<h3>\u2018Excesso acusat\u00f3rio\u2019<\/h3>\n<p><span class=\"dropcap\" data-shortcode-type=\"dropcap\">A<\/span>o longo da investiga\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio P\u00fablico ouviu outro jovem que morou com o bispo na adolesc\u00eancia, quando estudava para se tornar padre \u2013 seu sonho de inf\u00e2ncia. O rapaz conta que ganhou diversos presentes e at\u00e9 um cheque em branco dado pelo religioso para comprar um viol\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele nega que tenha sido abusado sexualmente, mas diz que hoje v\u00ea que havia segundas inten\u00e7\u00f5es nas car\u00edcias e presentes. A fam\u00edlia do rapaz n\u00e3o se convenceu completamente dessa vers\u00e3o. O promotor tamb\u00e9m chamou a m\u00e3e do rapaz para depor. Ela conta que, depois de deixar a casa do bispo, o filho chegou a ser expulso do semin\u00e1rio sem explica\u00e7\u00e3o. Nesta ocasi\u00e3o, ouviu do adolescente que algo muito triste aconteceria com a diocese, e ele n\u00e3o queria estar l\u00e1 para ver.<\/p>\n<p>Nervosa, ela chorou e disse em depoimento em v\u00eddeo ao MP ao qual tive acesso que acredita que o filho foi abusado. E concluiu que entregou \u00e0 igreja um adolescente \u201cque vivia fazendo carinho\u201d e recebeu de volta um jovem \u201crevoltado, agressivo\u201d at\u00e9 mesmo com a pr\u00f3pria m\u00e3e. A m\u00e3e disse ainda que o jovem parece guardar algum segredo muito s\u00e9rio. No depoimento, o rapaz reconhece que, ap\u00f3s este per\u00edodo, se tornou \u201cexplosivo\u201d e que se irrita muito facilmente, mas diz n\u00e3o saber se a mudan\u00e7a no seu comportamento tem rela\u00e7\u00e3o com o conv\u00edvio com o bispo.<\/p>\n<p>Na den\u00fancia apresentada ao Judici\u00e1rio, o promotor pede que o bispo seja proibido de exercer suas fun\u00e7\u00f5es durante o processo e que Tain\u00e1 passe por uma avalia\u00e7\u00e3o psicossocial.<\/p>\n<p>O MP enquadrou o bispo no&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2009\/lei\/l12015.htm#:~:text=Estupro%20de%20vulner%C3%A1vel-,Art.,a%2015%20(quinze)%20anos.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo 217-A do C\u00f3digo Penal<\/a>, que define o estupro de vulner\u00e1vel como \u201cter conjun\u00e7\u00e3o carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos\u201d. Para a promotoria, as car\u00edcias iniciadas quando a v\u00edtima tinha 13 anos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com os abusos sexuais sofridos aos 14. Pediu ainda que a pena seja aumentada em 50%, em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre agressor e v\u00edtima.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\" data-reactid=\"205\">\n<div data-reactid=\"206\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381234\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/denuncia-mp.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul\"><\/p>\n<p class=\"caption\">Trecho da den\u00fancia apresentada \u00e0 justi\u00e7a pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"207\">\n<p>J\u00e1 para o juiz, os fatos ocorridos antes da cria\u00e7\u00e3o da lei que tipifica o crime de estupro de vulner\u00e1vel, que \u00e9 de agosto de 2009, n\u00e3o poderiam ser enquadrados dessa forma. Antes da vig\u00eancia dessa lei, explica o magistrado, o C\u00f3digo Penal previa que o crime de estupro fosse cometido contra mulher e mediante viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Quanto aos fatos ocorridos ap\u00f3s a vig\u00eancia dessa lei, segundo o C\u00f3digo Penal, o menor j\u00e1 tinha 14 anos completos e, neste caso, s\u00f3 poderia ser v\u00edtima de estupro de vulner\u00e1vel se n\u00e3o pudesse oferecer resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O MP sustenta a \u201ctotal vulnerabilidade afetivo-psicol\u00f3gica\u201d do menino, que morava na casa do bispo, dependia economicamente dele e estava submetido a ele em fun\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o na igreja. Mas, para o juiz local, o argumento \u00e9 \u201cexcesso acusat\u00f3rio\u201d, \u201cporquanto as aludidas fraquezas individuais n\u00e3o s\u00e3o capazes de indicar a incapacidade do ent\u00e3o adolescente consentir\u201d..<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\" data-reactid=\"208\">\n<div data-reactid=\"209\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-381372\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2021\/12\/silencio-na-igreja-1.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Bispo cat\u00f3lico \u00e9 denunciado por estupro de vulner\u00e1vel depois de morar com adolescentes no RS\"><\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Amanda Miranda para o Intercept Brasil<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"210\">\n<h3>\u2018O que qualquer crist\u00e3o faria\u2019<\/h3>\n<p><span class=\"dropcap\" data-shortcode-type=\"dropcap\">T<\/span>amb\u00e9m segue sem desfecho a situa\u00e7\u00e3o dos padres que denunciaram o caso.<\/p>\n<p>Com forma\u00e7\u00e3o em Teologia e doutorado em Educa\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca da carta-den\u00fancia, o ent\u00e3o padre Zucchi era tamb\u00e9m professor universit\u00e1rio na URI, onde a Diocese tem cadeira cativa no conselho universit\u00e1rio. Alguns meses depois da carta, foi demitido. Ouviu que a demiss\u00e3o foi por quest\u00f5es econ\u00f4micas, mas n\u00e3o se convenceu da explica\u00e7\u00e3o. A universidade afirma que n\u00e3o houve influ\u00eancia da igreja na demiss\u00e3o e que n\u00e3o tem conhecimento de den\u00fancia contra o bispo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, ele entrou em depress\u00e3o e precisou de tratamento psicol\u00f3gico. Desde mar\u00e7o de 2021, Zuchi enfrenta tamb\u00e9m um processo de expuls\u00e3o da igreja. Ele tenta na justi\u00e7a comum anular seu afastamento. J\u00e1&nbsp; processou o bispo por difama\u00e7\u00e3o e pediu uma indeniza\u00e7\u00e3o, pois sua suspens\u00e3o foi publicada na imprensa local \u2013 nos ve\u00edculos do grupo Luz e Alegria.<\/p>\n<p>Ele diz que s\u00f3 fez o que qualquer crist\u00e3o faria. Em 2019, o papa Francisco promulgou&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/internacional\/papa-ordena-abolicao-do-segredo-pontificio-para-casos-de-abuso-sexual-dw\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">novas regras<\/a>, que obrigam padres e outros religiosos a denunciarem suspeitas de abuso sexual na igreja e tentativas de acobert\u00e1-las. A mudan\u00e7a foi editada por um decreto do papa intitulado&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/en\/motu_proprio\/documents\/papa-francesco-motu-proprio-20190507_vos-estis-lux-mundi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cVos estis lux mundi\u201d<\/a>, \u201cV\u00f3s sois a luz do mundo\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Meses depois, Francisco&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/12\/17\/internacional\/1576581104_982724.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">acabou com o sigilo em casos de viol\u00eancia sexual<\/a>&nbsp;e abusos de menores e vulner\u00e1veis por parte de representantes da igreja. O objetivo \u00e9 acabar com a lei do sil\u00eancio que geralmente paira sobre estes casos. A mudan\u00e7a obriga a igreja a cooperar com as investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cTomamos as medidas que o Vaticano indica, que qualquer um tomaria, como cidad\u00e3o e como crist\u00e3o. Ele exp\u00f4s meu nome no jornal da diocese, na internet. Me suspendeu de padre sem o devido processo can\u00f4nico. Isso \u00e9 uma clara repres\u00e1lia por eu ter sido uma das pessoas que o denunciaram\u201d, disse o padre.<\/p>\n<p>Mas Claudir Zuchi n\u00e3o foi o \u00fanico dos denunciantes que sofreu penalidades dentro da igreja. O padre Silv\u00e9rio Klassen, primeiro a assinar a carta-den\u00fancia contra o bispo, tamb\u00e9m acabou afastado de suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que a carta foi enviada ao N\u00fancio e ao MP, ele recebeu uma \u201cadvert\u00eancia can\u00f4nica reservada\u201d, assinada pelo bispo Rossi Keller. No documento, escrito em primeira pessoa, o bispo diz ter recebido relatos de \u201ccondutas indignas\u201d do padre, como alcoolismo e agressividade com os fi\u00e9is. Klassen nega e garante que se trata de persegui\u00e7\u00e3o motivada pela carta-den\u00fancia.<\/p>\n<p>Na advert\u00eancia, Keller determina que o padre renuncie ao cargo de p\u00e1roco e v\u00e1 morar \u201cnum territ\u00f3rio fora da diocese\u201d. Em contrapartida, garante que o padre seguir\u00e1 recebendo a c\u00f4ngrua. Na \u00e9poca das den\u00fancias, Klassen era p\u00e1roco na par\u00f3quia de Santa Catarina de Braga, no munic\u00edpio de Braga, que tem cerca de 3,6 mil habitantes e fica na regi\u00e3o comandada pelo bispo Keller. Conforme determinado pela advert\u00eancia, ele renunciou ao cargo e se mudou.<\/p>\n<p>Ainda assim, me disse que recebeu a c\u00f4ngrua somente nos primeiros dois anos. Hoje, vive de uma aposentadoria. \u201cMe jogou fora, como jogou fora outros. Tive de me virar, vim para o Rio de Janeiro\u201d, me contou.<\/p>\n<p>Aos 67 anos, segue vinculado \u00e0 igreja, mas n\u00e3o cumpre fun\u00e7\u00e3o. Em tom de lamenta\u00e7\u00e3o, ele encerrou assim nossa conversa: \u201ca nossa igreja \u00e9 santa e tamb\u00e9m pecadora, infelizmente\u201d.<\/p>\n<p>Cabe agora aos desembargadores do Tribunal de Justi\u00e7a do Rio Grande do Sul decidirem qu\u00e3o santa foi a atua\u00e7\u00e3o do bispo Keller em Frederico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"third-party--article-bottom\" class=\"InlineDonationPromo-container\" data-reactid=\"211\">&nbsp;<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O portal The Intercept Brasil publica nesta segunda-feira, 20, uma reportagem especial denominada&nbsp; &#8220;SIL\u00caNCIO NA IGREJA&#8221;, que&nbsp; traz den\u00fancias contra o Bispo da cidade, Dom Antonio Carlos Rossi Keller. 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