{"id":48060,"date":"2021-06-01T12:15:47","date_gmt":"2021-06-01T14:15:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.comunitaria.com.br\/?p=48060"},"modified":"2021-06-01T12:15:47","modified_gmt":"2021-06-01T14:15:47","slug":"semana-do-meio-ambiente-2020-2030-o-decenio-crucial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.comunitaria.com.br\/en\/semana-do-meio-ambiente-2020-2030-o-decenio-crucial\/","title":{"rendered":"Semana do Meio Ambiente: 2020-2030 o dec\u00eanio crucial"},"content":{"rendered":"<p>Em 2001, 17 Academias Nacionais de Ci\u00eancias Declara\u00e7\u00e3o conjunta (Science, editorial) reconheceram o aquecimento global como um grave problema. O Joint statement (Science, editorial) menciona: \u201c<em>Reconhecemos o IPCC como a mais confi\u00e1vel fonte de informa\u00e7\u00e3o sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e sobre suas causas e endossamos seu m\u00e9todo de estabelecer esse consenso\u201d, o<\/em>&nbsp;IPCC ou Intergovernmental Panel on Climate Change \u00e9 o Painel Intergovernamental para a Mudan\u00e7a de Clima, um \u00f3rg\u00e3o que fornece avalia\u00e7\u00f5es regulares sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em 2014 The Royal Society junto com The National Academy of Sciences e a Joint statement reafirmaram que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 o maior problema de nosso tempo. \u201c\u00c9 agora mais certo que nunca (&#8230;) que os humanos est\u00e3o mudando o clima do planeta\u201d. H\u00e1 correla\u00e7\u00e3o entre consenso cient\u00edfico e expertise em ci\u00eancia do clima: quanto maior a expertise espec\u00edfica sobre a ci\u00eancia do clima, maior \u00e9 o consenso. Em outras palavras, quem entende pouco do assunto tem mais chance de acabar negacionista. No ano de 2009 havia um consenso sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica em torno de 97%; subiu para 97,5% em 2010. Em 2013 havia m consenso de 98,5% entre os cientistas de que h\u00e1 mudan\u00e7a clim\u00e1tica global. Sendo assim, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas derivadas das atividades antropog\u00eanicas constitui consenso cient\u00edfico endossado por 80 Academias Nacionais de Ci\u00eancia. Tamb\u00e9m 200 organiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas subscrevem o consenso sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas antropog\u00eanicas.<\/p>\n<p>Cada d\u00e9cada desde a de 1970 foi claramente mais quente que a d\u00e9cada precedente. O dec\u00eanio 2014 \u2013 2023 ser\u00e1 o mais quente dos \u00faltimos 150 anos. A taxa de aquecimento do oceano, entre 1992 e 2015, quase dobrou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 taxa das 3 d\u00e9cadas anteriores (1960 \u2013 1991). Que 20 dos 22 \u00faltimos anos foram os mais quentes dos registros hist\u00f3ricos desde 1880. Desde 2014 o aquecimento global acelera-se ainda mais: o per\u00edodo de 2014 a 2019, observou<br \/>\nque foram os 6 anos mais quentes dos registros hist\u00f3ricos. Segundo dados da OMM (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Meteorologia), o ano 2020 foi um&nbsp; dos anos mais quentes da hist\u00f3ria e quase bateu o recorde de 2016.<\/p>\n<p><strong>Acelera\u00e7\u00e3o:<\/strong><br \/>\nDesde 2014 o aquecimento global tem se acelerado e multiplica-se por 2,5 na compara\u00e7\u00e3o entre os dois per\u00edodos de 1970-2014 e entre 2008-2017.<br \/>\nTaxa de aquecimento do oceano : no per\u00edodo de 1992 &#8211; 2015 quase dobrou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 taxa das 3 d\u00e9cadas anteriores (1960 \u2013 1991).<\/p>\n<p><strong>Um aquecimento m\u00e9dio global de 2\u00ba Celsius acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial pode ocorrer no segundo quarto do s\u00e9culo XXI<\/strong><br \/>\nAquecimento menor que 1,5\u00ba Celsius em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial (1850-1900) j\u00e1 \u00e9 inevit\u00e1vel por causa do desequil\u00edbrio energ\u00e9tico do planeta: <em>\u201cMais aquecimento \u00e9 inevit\u00e1vel; ocorrer\u00e1 mesmo sem mais emiss\u00e3o de Gases Efeito Estufa &#8211; GEE<\/em>\u201d. H\u00e1 um desequil\u00edbrio energ\u00e9tico tempor\u00e1rio. Mais energia est\u00e1 chegando do que saindo da Terra e isso continuar\u00e1 at\u00e9 que a Terra se aque\u00e7a o bastante para de novo irradiar para fora tanta&nbsp; energia quanto ela absorve do sol. &#8220;<em>O desequil\u00edbrio energ\u00e9tico total \u00e9 de cerca de 6\/10 W\/m2 \u00c9 enorme. \u00c9 cerca de 20 vezes maior que a taxa de energia usada pela humanidade. \u00c9 o equivalente a explodir 400 mil bombas at\u00f4micas de Hiroshima por dia, 365 dias\/ano. O planeta est\u00e1 acumulando 4 bombas at\u00f4micas da&nbsp; pot\u00eancia de Hiroshima em termos de energia t\u00e9rmica por segundo, desde 1998 at\u00e9 2012. Isso \u00e9 quanto a Terra est\u00e1 absorvendo em energia suplementar todos os dias<\/em>\u201d. H\u00e1 defasagem de aproximadamente 10 anos entre a emiss\u00e3o de CO2 e seu m\u00e1ximo impacto sobre o aquecimento<\/p>\n<p><strong>O aquecimento global ocorrer\u00e1 antes das proje\u00e7\u00f5es do IPCC por:<\/strong><br \/>\na) As emiss\u00f5es de CO2 continuam aumentando. Em 2018 foram +63% em rela\u00e7\u00e3o a 1990.<br \/>\nb) Efeito paradoxal do menor uso de carv\u00e3o \u201cOs aeross\u00f3is, incluindo os sulfatos, nitratos e os<br \/>\ncompostos org\u00e2nicos, refletem a luz solar. Esse escudo de aeross\u00f3is manteve o planeta mais<br \/>\nfrio, possivelmente em at\u00e9 0,7\u00ba Celsius globalmente\u201d [outras avalia\u00e7\u00f5es: 0,5\u00baC a 1,1\u00baC];<br \/>\nc) H\u00e1 sinais de que o planeta est\u00e1 entrando em uma fase de aquecimento natural, que pode durar algumas d\u00e9cadas, por causa da Oscila\u00e7\u00e3o Interdecadal do Pac\u00edfico. Ent\u00e3o, A Terra cruzar\u00e1 o limiar perigoso do clima at\u00e9 2036. A chance de que ao menos um ano entre 2020 e 2024 exceda 1,5\u00baC acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial \u00e9 de 24%; essas chances aumentam com o tempo.<\/p>\n<p>O colapso dos pergelissolos (permafrost) j\u00e1 come\u00e7ou. O metano (CH4) liberado no \u00c1rtico engendra um aquecimento catastr\u00f3fico nos pr\u00f3ximos 20 anos. Segundo o Arctic Methane Emergency Group (AMEG) de Cambridge, UK \u201cO CH4 pode-se tornar a maior for\u00e7ante radiativa nos pr\u00f3ximos 20 anos\u201d. Mesmo que isso n\u00e3o se verifique, \u00e9 clara a maior participa\u00e7\u00e3o do metano no \u00e2mbito dos GEE (24% das terras do hemisf\u00e9rio norte s\u00e3o pergelissolos, solos<br \/>\ncongelados). \u201cPara manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2\u00baC \u00e9 necess\u00e1rio que o pico das emiss\u00f5es seja atingido no mais tardar em 2020\u201d (Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC em 2017).<\/p>\n<p><strong>Mas por que 2\u00ba Celsius \u00e9 desastroso?<\/strong><br \/>\nUm aumento de 2\u00ba Celsius deixar\u00e1 a Terra mais quente do que foi na era Quatern\u00e1ria (os \u00faltimos 2,5 milh\u00f5es de anos). A civiliza\u00e7\u00e3o humana nunca experimentou um aumento de temperatura desse n\u00edvel. A nossa esp\u00e9cie (e muitos outros organismos atuais) nunca tiveram a experi\u00eancia<br \/>\nde viver em um planeta acima de 2\u00baC. Esse aumento poder\u00e1 acarretar Eventos Meteorol\u00f3gicos Extremos (EME) como aumento do per\u00edodo seco em muitas partes do mundo, chuvas intensas e distribu\u00eddas irregularmente, grandes inunda\u00e7\u00f5es, inc\u00eandios florestais mais frequentes, esgotamento da \u00e1gua doce, morte dos oceanos, ar irrespir\u00e1vel, aparecimento de pragas, mais dias de calor e frio extremos que poder\u00e3o ser letais, queda dos rendimentos agropecu\u00e1rios que acarretar\u00e3o fome e colapso econ\u00f4mico. Tudo isso far\u00e1 que haja grandes deslocamentos populacionais (migra\u00e7\u00f5es em massa) com aumento de conflitos e guerras por recursos naturais, agravando&nbsp; os desastres n\u00e3o mais naturais. E tudo isso poder\u00e1 ocorrer em cascatas tornando a Terra literalmente inabit\u00e1vel (WALLACE-WELLS, 2019).<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 entre as regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis \u201cO limite de 2\u00baC das temperaturas m\u00e9dias em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial pode ser cruzado em 2030 no Mediterr\u00e2neo, na regi\u00e3o central do Brasil e nos EUA\u201d<\/p>\n<p><em>\u201cA probabilidade de aquecimentos extremos no Brasil \u00e9 mais alta e ocorre antes no tempo. A chance de atingir um aquecimento maior que 4\u00baC \u00e9 elevada neste s\u00e9culo\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Manter o aquecimento abaixo do n\u00edvel de um colapso socioambiental global. \u201cO que fizermos nos pr\u00f3ximos dez anos determinar\u00e1 o futuro da humanidade nos pr\u00f3ximos 10 mil anos\u201d. Frase de Sir David King, Professor Em\u00e9rito da Universidade de Cambridge, exprime um amplo consenso cient\u00edfico. O pr\u00f3ximo dec\u00eanio ser\u00e1, de fato, o mais crucial da hist\u00f3ria da humanidade. \u201cEstamos em um ponto de inflex\u00e3o. Os pr\u00f3ximos anos ser\u00e3o os mais importantes da<br \/>\nhist\u00f3ria da humanidade\u201d (Kathleen Dean Moore, filosofa ambiental). \u201cTemos 12 anos para limitar uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica catastr\u00f3fica\u201d (IPCC, 2018).<\/p>\n<p><em>\u201cDevemos nos mobilizar hoje com a m\u00e1xima urg\u00eancia para transformar a economia no prazo de uma d\u00e9cada\u201d<\/em> (Paul Gilding, 2019). Segundo o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (WEF) em seu Global Risks Report 2017-2018 os&nbsp; 4 dos 5 riscos com maior impacto nos pr\u00f3ximos 10 anos est\u00e3o diretamente associados \u00e0s crises clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Guterres, o secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, chamou as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de \u201ca quest\u00e3o definidora do nosso tempo\u201d. Em setembro de 2018: \u201cS<em>e n\u00e3o mudarmos nossa rota at\u00e9 2020, corremos o risco de deixar passar o momento em que \u00e9 ainda poss\u00edvel evitar uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica desenfreada (runaway climate change), com consequ\u00eancias desastrosas para a humanidade e para os sistemas <\/em><em>naturais que nos sustenta<\/em>m\u201d. Foi a primeira vez que o termo \u201crunaway climate change\u201d emerge no cauteloso vocabul\u00e1rio diplom\u00e1tico. Proteger a biodiversidade \u00e9 t\u00e3o importante quanto combater&nbsp; as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O tempo para a a\u00e7\u00e3o foi ontem ou o dia anterior (Robert Watson, IPBES).&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Resumo do livro O Dec\u00eanio Crucial Luiz Marques \/ UNICAMP)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2001, 17 Academias Nacionais de Ci\u00eancias Declara\u00e7\u00e3o conjunta (Science, editorial) reconheceram o aquecimento global como um grave problema. 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