Cicatrizes Invisíveis: como as mudanças climáticas afetam a saúde mental de crianças e jovens

Por: Lavínia Machado e Rodrigo Davila

Especialistas e educadores alertam para o crescimento da “ansiedade climática” e do trauma pós-enchente no Rio Grande do Sul, destacando a urgência de acolhimento psicológico nas escolas.

Onde antes imperava o som das brincadeiras, hoje, para muitas crianças e jovens, ecoa o silêncio da incerteza. Um silêncio provocado por uma pergunta pesada demais para a infância: o mundo vai acabar?

Longe de ser uma preocupação distante, as mudanças climáticas já deixam cicatrizes profundas e invisíveis na atual geração. No Rio Grande do Sul, essa realidade atende por um nome recente e doloroso: a enchente de 2024. As águas que invadiram casas e escolas levaram não apenas objetos materiais, mas também a sensação de segurança de milhares de famílias.

Hoje, o céu nublado já não é um mero prenúncio de frio, mas sim um gatilho para o medo e o desespero. Antes mesmo dos recentes desastres no Brasil, apontava que 1 em cada 7 pessoas entre 10 e 19 anos sofre de algum transtorno mental. Em pesquisa com 10 mil jovens, revelou que quase 60% sentem-se muito ou extremamente preocupados com as mudanças climáticas. Além disso, mais de 45% afirmam que essa angústia afeta negativamente o sono, a alimentação e o dia a dia.  

Em estudo sobre desastres anteriores (como em Petrópolis, RJ), demonstrou que crianças expostas a eventos climáticos extremos apresentam taxas significativamente mais altas de transtorno de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade.

O Que é a Ansiedade Climática?

Essa angústia crônica sobre o futuro do planeta já tem nome: ansiedade climática ou ecoansiedade. Segundo o Dr. Pedro Beria, médico psiquiatra e coordenador do curso de medicina da Universidade Feevale (RS), esses termos ganharam força na literatura científica a partir da década de 1990.

“Tanto a ecoansiedade quanto a ansiedade climática estão associadas a sentimentos de afeto negativo, como ansiedade, angústia, tristeza, preocupação excessiva e pensamentos intrusivos — que são mais fortes que os pensamentos em geral. Tudo isso está relacionado aos possíveis desfechos negativos para o futuro do planeta,” explica o especialista.

A transformação do medo abstrato em um trauma real acontece quando o desastre natural bate à porta. Se não tratada, essa angústia paralisa o jovem, prejudicando seu desempenho escolar, sua capacidade de concentração e suas relações sociais.

O Desafio Diário nas Salas de Aula

Na cidade de Sinimbu, fortemente castigada pelas chuvas, os reflexos do trauma são parte da rotina escolar. Claicy Gutzi, diretora da Escola Municipal Nossa Senhora da Glória, relata que foi necessário preparar intensamente os professores para receber os alunos após a tragédia.

“Ficou muito abalado o nosso psicológico. Nós tivemos que trabalhar isso antes de retornar às aulas,” desabafa a educadora. “A gente percebia neles a alegria de poder estar aqui novamente, mas ao mesmo tempo muita dor e muito sofrimento pelo que tinham vivido.”

A diretora ressalta que o medo ressurge a cada nova ameaça de chuva, paralisando principalmente aqueles que perderam suas casas ou viveram momentos de insegurança durante a enchente. Apesar dos esforços para realizar o acolhimento — incluindo trabalhos em grupo e encaminhamentos individuais , há um déficit claro de profissionais capacitados para atender a uma demanda que triplicou.

Como Acolher e Proteger?

Diante de um cenário em que as ameaças climáticas tendem a se tornar mais comuns, proteger a saúde mental de crianças e jovens exige mais do que boas intenções; exige ação coordenada entre escolas e famílias.

Especialistas e educadores sugerem as seguintes abordagens:

  • Ouvir sem julgar: O primeiro passo é validar os sentimentos da criança, entendendo que o medo que ela sente é real e justificado.

  • Instruir as famílias: Muitas vezes, pais e avós também estão traumatizados e não sabem como lidar com o sofrimento dos mais novos. Trazer a família para dentro da escola e oferecer orientações é fundamental.

  • Acompanhamento profissional: Quando os sintomas (insônia, isolamento, queda de desempenho) se tornam incapacitantes, é imprescindível buscar a ajuda de psicólogos e terapeutas.

 

 

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