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  • Caso Marielle e Anderson segue sem respostas três anos após assassinatos

Caso Marielle e Anderson segue sem respostas três anos após assassinatos

A execução de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes completou três anos neste domingo, 14, sem que o mandante do crime tenha sido identificado. Ainda que os gritos por justiça não tenham cessado e o caso siga repercutindo internacionalmente, somente o sargento aposentado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz foram detidos. Eles estão presos desde março de 2019 e irão a júri popular. O autor intelectual do crime, no entanto, permanece incólume. A morte da vereadora impulsionou mobilizações de ruas e inspirou candidaturas que ocuparam os parlamentos de todo o Brasil desde então.

Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora do Instituto Marielle Franco, declarou na última sexta-feira (12) que “três anos é um tempo constrangedor para as autoridades responsáveis pela investigação”. O caso está nas mãos da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ). A reportagem entrou em contato com os órgãos que afirmaram, em nota, que as investigações seguem com delegado e equipe exclusivos para o caso, e que mais de 100 diligências foram realizadas.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Anielle falou sobre o luto e a dor que segue afligindo a família de Marielle três anos após o crime. “Março é um mês de muita saudade. É um mês em que a gente chora lembrando do quanto caminhamos, mas entendendo que temos muito chão pela frente ainda. É um mês de resistência”.

Apesar da morosidade da Justiça, a educadora reforça que a cobrança por respostas e justiça pela morte de sua irmã não irá cessar. “Espero que consigamos descobrir de fato quem mandou matar a Mari. Seguimos esperançosos para que tenhamos alguma pista, alguma coisa, para não termos que esperar mais três anos para sabermos qualquer coisa sobre esse caso”, afirmou. “É um crime muito bem arquitetado, que envolve disputas políticas que talvez nunca saibamos os reais motivos. Mas estou ansiosa por toda e qualquer novidade que venha sair dessa investigação.”

Para a deputada estadual Renata Souza, que integrava o gabinete de Marielle e foi eleita após a execução da vereadora, a ausência de respostas sobre o mandante do crime evidencia as falhas do sistema de justiça brasileiro. Segundo ela, há um desmonte nos grupos especializados do MP-RJ, com dissoluções de equipes, o que pode ter interferido no andamento da investigação. Souza define o assassinato de Marielle, mulher negra, cria da favela da Maré, mãe e LGBT, como um feminicídio político.

“A Marielle infelizmente não foi a primeira e não será a última mulher preta que carrega em seu corpo e história de vida a população mais oprimida e mais descartável da sociedade”, diz a parlamentar, ressaltando que o crime é uma ameaça à democracia e a “todos que se insurgem contra uma elite política e econômica que se coloca acima do bem e do mal no Brasil”.

Perguntas sem respostas

Ao longo desses quase três anos, o inquérito apontou a participação de milicianos das forças de segurança do Rio de Janeiro. Alguns políticos figuraram como suspeitos da autoria intelectual do crime, entre eles o vereador Marcelo Siciliano (PHS), o ex-vereador Cristiano Girão e o ex-deputado Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Todos negam envolvimento.

A Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco realizaram uma entrevista coletiva na última sexta (12) e apresentaram uma petição com um milhão de assinaturas que cobra celeridade nas investigações do crime. O documento também apresenta a relação de 14 perguntas sobre os assassinatos que permanecem sem respostas. As entidades querem saber, por exemplo, a relação de Lucas do Prado Nascimento da Silva, responsável por clonar os documentos do veículo utilizado por Ronnie Lessa e Elcio Queiroz na noite do crime, com o miliciano Adriano da Nóbrega e o Escritório do Crime.

A petição com as assinaturas e as perguntas será entregue a Cláudio Castro, governador em exercício do Rio de Janeiro, ao procurador-geral de Justiça do estado, Luciano Mattos. Uma audiência com ambas autoridades também foi requisitada pelos familiares.

Iniciativas

O Instituto Marielle Franco foi criado pelos familiares da vereadora para manter vivo o legado, fortalecer a luta por justiça e defender sua memória. No marco de 3 anos do crime, foi preparada a ação “Plantando Sementes” junto com 70 parlamentares em 45 cidades do Brasil. A ideia é que os políticos apresentem um Projeto de Lei para que o 14 de março se torne o Dia Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política contra mulheres negras, LGBTs e periféricas. Além disso, os 70 parlamentares se comprometeram a replicar 12 projetos de lei de Marielle em suas cidades.

O Instituto organizou um mapa que centraliza diversas manifestações presenciais e virtuais que ocorrerão no Brasil e fora do país para lembrar o crime e cobrar justiça. Na opinião de Renata Souza, seguir dando visibilidade ao caso é crucial para que a violência política não seja naturalizada diante da impunidade. “Nós, mulheres pretas, nos sentimos pessoalmente ameaçadas com o assassinato da Marielle. Mas, sem dúvida nenhuma, esse feminicídio político nos energiza a continuar para que nenhuma outra Marielle tombe diante diante da luta por uma sociedade mais igualitária, mais humana e por mais direitos”, comenta.

Em meio a saudade, a deputada carrega o legado de Marielle em sua atuação política e destaca que a vereadora é um exemplo da “política afetiva e efetiva”. “Marielle tinha o ímpeto da decisão, da assertividade em seu perfil. E muito era carinhosa sempre, acolhedora, Uma mulher que nos abraçava muito, ainda que todas as pautas que tocasse fossem duras. Ela faz falta no nosso cotidiano e em nossas decisões políticas. A Marielle faz falta, não só para mim, mas para o movimento de mulheres negras, da população de favela e de periferia, da população LGBT. A Marielle faz falta pro mundo”, endossa Souza.

Sementes e frutos

Entre os outros projetos do Instituto Marielle Franco, está a Agenda Marielle, um conjunto de compromissos e práticas elaborados a partir da trajetória política e de vida da vereadora. O objetivo é que candidatos signatários se comprometam com a elaboração de políticas antirracistas, feministas e LGBTQIA+. O manifesto angariou mais de 760 assinaturas, das quais 81 candidaturas de diferentes partidos foram eleitas em 54 municípios brasileiros.

Ao lado da Coalizão Negra por Direitos e outras organizações, o Instituto conseguiu a provação da divisão do Fundo Eleitoral e do tempo de TV para candidaturas negras no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A organização também criou a Plataforma Antirracista nas Eleições (Pane), que reuniu ações e ferramentas para combater as estruturas racistas inerentes ao sistema político brasileiro, e realizou uma pesquisa inédita sobre a violência política contra mulheres negras nas eleições municipais de 2020.

Anielle Franco sublinha a importância das iniciativas e comemora a ocupação dos parlamentos com candidaturas inspiradas em Marielle, mas acrescenta que o legado de sua irmã vai além da política institucional. Outro projeto desenvolvido pelo Instituto, por exemplo, é o Mapa Corona nas Periferias, em conjunto com o portal Favela em Pauta e com o Twitter Brasil, que visa mapear e dar visibilidade às iniciativas de combate contra o coronavírus nas favelas e periferias de todo país.

Atualmente, o Instituto faz uma campanha de financiamento coletivo para a construção da “Escola Marielles”, voltada para jovens negras de periferias e favelas. A ideia é construir um centro de memória e ancestralidade que também leve o nome de Marielle Franco.

Os familiares da vereadora também estão arrecadando recursos para financiar a criação de uma estátua de Marielle. “Cerramos nosso punho e dizemos que vamos sim, resistir, e que vamos adiante. Não só por nós e por nossas filhas, mas pelas que vieram antes. Por Marielle e por todas que nos inspiram”, ressalta Anielle Franco.

 

 

*Brasil de Fato 

Tags: marielle franco, quem mandou matar marielle, três anos marielle

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