Lula faz maior ato de sua caravana em Palmeira das Missões

Coube ao pequeno município de Palmeira das Missões, com cerca de 34 mil habitantes, dar a Lula o seu maior palanque até o momento de sua caravana pelo Rio Grande do Sul. Milhares de pessoas lotaram o Largo Alfredo Westphalen, no centro da cidade, para receber o ex-presidente no mesmo momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidia acatar o julgamento de seu habeas corpus, empurrando qualquer decisão sobre sua prisão para depois do dia 4 de abril.

A explicação para o tamanho do público na cidade passa pelo fato de que Palmeira das Missões está localizada em uma das regiões com o maior número de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e onde os pequenos agricultores são mais organizados em movimentos sociais, como o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). É nesta região, na cidade de Sarandi – distante cerca de 45 km de Palmeira -, que está localizada a Fazenda Anonni, palco da primeira ocupação feita pelo MST no Estado, em 29 de outubro de 1985, quando cerca de 7 mil famílias, segundo relatos do movimento, ocuparam o local em busca rde uma terra para plantar.

No ato, que se iniciou por volta das 18h, representantes dos movimentos contaram suas histórias no palco e entregaram presentes ao presidente. A engenheira Monique, por exemplo, subiu ao palco para agradecer Lula por ter aberto uma universidade federal na região – o campus local da Universidade Federal de Santa Maria foi inaugurado durante o governo Lula.

A força dos sem terra na região também foi demarcada pela presença do coordenador nacional do MST no ato, João Pedro Stédile, que fez uma fala crítica ao atual governo federal e de cobrança de mudanças nas políticas para o campo. “Aqui é um ato regional onde temos muitos companheiros agricultores familiares, sem terra, assentados. Eles [o governo Temer] acabaram com qualquer programa de incentivo à agricultura. Mesmo com a exportação de soja, todos sabem que o monocultivo de soja destrói a biodiversidade, destrói a água, e os únicos que se beneficiam são as multinacionais que vendem veneno e maquinas”, disse.

Para Stédile, um dos motivos de o Estado do Rio Grande do Sul estar há anos em crise financeira é o crescimento do monocultivo da soja, que goza de benefícios fiscais da Lei Kandir por se tratar de uma atividade fortemente voltada para a exportação, enquanto a saída dessa situação passaria por uma valorização do modelo agrícola desenvolvido pelos pequenos proprietários, como aqueles presentes no ato. “O que está em jogo é o modelo agrícola. Não é só garantir terras para sem-terra, indígenas e quilombolas, mas o debate agora é qual modelo de agricultura queremos para o Brasil, para o futuro. Queremos um modelo baseado na produção camponesa, na produção de alimento sem agrotóxico, que só pode ser cultivado com base na agroecologia. Ao eleger o Lula, estaremos elegendo outro modelo de desenvolvimento para o País”.

Confira momentos da fala de Lula: 

 

Vivência com o povo

Quando chegou a sua vez de falar, Lula tratou logo de fazer média com os pequenos agricultores, ao dizer que foi graças ao processo de tomada consciência deles, juntamente com a de outros grupos de trabalhadores que antes possuíam menos voz na sociedade brasileira, que passou a ser construído o cenário no qual ele viria a ser eleito presidente.

“Eu entendia porque as pessoas não votavam em mim. No começo, eu ia em porta de fábrica e as pessoas pensavam que, se eu não tinha estudado, e como elas também não tinham estudado e não se sentiam preparadas para governar o país, não queriam votar em mim. Eles tinham medo de votar em um cara que consideravam ignorante, afinal, a literatura dizia que, para ser governo, tinha que ser da elite, tinha que ser letrado. Eu perdi três eleições e já chegava em casa com vergonha da Marisa, falava que não ia concorrer mais, e a Marisa falava ‘nada disso’, pode se preparar que na outra você vai outra vez, até ganhar”, disse.

Mas, então, continuou Lula, foi o fato de o povo identificar nele um igual que possibilitou sua eleição, reeleição e as duas vitórias eleitorais de Dilma Rousseff. “A diferença entre um de nós e um cara da elite é que tudo que ele sabe é por literatura, tudo que aprendeu foi na universidade. Agora, a vivência de conviver com uma pessoa pobre, de tomar uma cervejinha, ele nunca fez. Ele não tem sentimento pra entender as pessoas”, disse.

Lula energizado 

O quarto dia de caravana pelo RS representou uma virada temática nos discursos de Lula. Se os primeiros três dias foram marcados por agressivos protestos por parte de ruralistas, que levaram o presidente a dedicar a eles boa parte de seus discursos, as três paradas do ex-presidente na quinta-feira (23) foram tranquilas. Já em Cruz Alta e Panambi ele havia feito falas mais leves, recheadas de piadas e em que prometia que responderia ao ódio de seus adversários com a volta do “Lulinha paz e amor”.

Em Palmeira das Missões, o Lula agravado pelas pedradas e os bloqueios contra os ônibus das caravanas, deu lugar ao animal político em seu habitat natural. Ele repetiu a sua já corriqueira frase de que está com 72 anos, com energia de 30 e tesão de 20, mas pela primeira vez na caravana, mas, ao contrário de outras vezes, a frase não pareceu um mero discurso ensaiado, ele de fato parecia mais animado. Também optou por dedicar menos tempo às ironias aos ruralistas que protestaram contra ele. Caminhou pelo palanque montado no largo distribuindo piscadelas e olhares como se fosse um verdadeiro animador de palco. Foi nesse momento em que resolveu abordar o seu julgamento no Supremo Tribunal Federal, um tema que vai e vem, mas que ronda mais seu destino eleitoral do que sua figura na caravana.

“Eu vou durar bastante e a única coisa que eu quero provar é a minha inocência”, prometeu, em tom de ameaça aos adversários. “Sou vítima de uma mentira do jornal ‘O Globo’, de uma mentira da Polícia Federal, de uma acusação mentirosa do Ministério Público, e o Moro preferiu contar outra mentira dizendo que o apartamento era meu e ele sabe que não é. A única coisa que quero é os juízes estudarem o mérito do meu processo e, se e tiver uma única culpa, eu não mereço ser candidato porque eu cometi um crime. Agora, eles estão há 4 anos cutucando a minha vida, invadiram minha casa, na casa do Cabral acharam joia, no Geddel acham mala de dinheiro, eles vão na minha casa, levantaram o colchão de um ex-Presidente da República e não encontraram nada. Deveriam ter vergonha e ter pedido desculpa”.

Falando antes de Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff também comentou o cenário político-jurídico do Brasil. “Afinal de contas, por que deram um golpe? Por varias razões. A razão mais óbvia eles achavam que se chegassem no poder impediriam que as investigações chegassem até eles e os condenassem. Não foi preciso muito tempo de golpe para que as malas surgissem. Uma porção de malas iam e viam, até surgirem as malas que estavam em um apartamento de um ministro desse governo ilegítimo”.

Obsessão pela educação

Se Lula tem preferido não falar tanto de seu julgamento durante a caravana, o tema da educação configurou-se como um dos mais recorrentes. Em outras paradas, como Santa Maria e São Vicente do Sul, havia defendido a federalização do Ensino Médio. Em Palmeira das Missões, disse que a educação era sua obsessão quando assumiu o governo em 2003.

“O filho do trabalhador não tinha como competir com o filho da classe média, porque no vestibular para universidade pública, quem passava era o filho do rico. Aí tinha que ir na escola particular e a mensalidade era cara e a pessoa mais humilde não podia estudar. Resolvemos criar o Prouni. O milagre do Prouni foi isentar as dividas das universidades particulares e transformamos as dividas em bolsas de estudo e começamos a colocar as pessoas da periferia na universidade privada. Era filha de pedreiro, de pequeno vendedor. As pessoas começaram a ter acesso. Na hora que você dá a mesma oportunidade, quando a pessoa toma café, almoça e janta todos dias, não tem rico melhor que pobre. O que a gente vai perceber é que há pessoas mais motivadas ou menos motivadas. As pessoas mais humildes agarraram aquilo como a tábua de salvação. O meu maior prazer é viajar o Brasil e encontrar as pessoas falando que são diplomadas pelo Prouni”, disse o ex-presidente.

Lula ainda usou as próprias dificuldades de acesso aos estudos, com doses de ironia, para fazer a defesa da educação como a melhor saída, o melhor investimento, que o Brasil pode fazer em sua busca pelo desenvolvimento nacional. “Eu não tive a oportunidade de estudar. Se eu tivesse, eu seria economista, porque economista é um bicho sabido. Economista na oposição sabe tudo. Mas quando chega no governo, na hora que pega para capar, ele não sabe tanto”, afirmou. “Ou eu queria estudar as estrelas. Plutão, Netuno, porque esse cara tá sempre viajando. Mas eu não tive oportunidade e fui estudar ser torneiro mecânico. Eu quero que os jovens estudem porque quando você tem uma profissão, você arranja emprego em qualquer lugar do Brasil com salário melhor”.

Ele ainda defendeu que a educação é a principal porta para as mulheres alcançarem a independência. “O motivo da independência da mulher é que uma mulher não pode viver com alguém a custa de um pedaço de pão ou um prato de comida. Eu estou dizendo a independência de escolher o que querem ser da vida, e que ninguém dê palpite na vida de vocês. E quando falo alguém, falo com homem ou com mulher”, disse.

Sul 21

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